Desfrutar

Guilherme Davoli
Psicólogo / consultor educacional e empresarial
www.guilhermedavoli.com.br

 E aí, como você vai?
– Ah! Tudo bem…
– Como assim? Você parece meio desanimado. Algum problema?
– Não, não… tudo certo. O problema é justamente o fato de que não acontece nada diferente. Falta algo, sabe?

Curiosa, comum e muito sinistra essa conversa, em que alguém diz que quando as coisas vão bem e sem problemas, é justamente aí nessa calmaria onde reside um “problema”.

Tenho visto muita situação parecida com esta e sempre acabo me questionando sobre o porquê de tantas crianças e adolescentes se sentirem entediados, mesmo quando cercados de inúmeros aparatos geradores de prazer imediato. Ou mesmo adultos portadores de agendas recheadas que não são capazes de se deleitar diante de um “excelente final de semana comum”, simplesmente por se colocarem na busca desesperada de atividades prazerosas que venham a justificar o bom uso desses momentos.

O curioso é que em um tempo não muito distante e, certamente, muito menos carregado por essa extensa variedade de opções de trabalho, lazer e informação, as pessoas facilmente se satisfaziam ao contemplar fatos rotineiros, precisando muito menos entendê-los e aprendendo muito mais a aceitá-los. Não havia toda essa necessidade do “tudo saber”.

Importante ressaltar que essa situação anda tão comum, que muita gente acredita ser essa uma postura natural do ser humano. Isso não se sustenta, pois a exemplo de todas as demais obras da criação divina, o ser humano, historicamente, sabia alternar entre o ”interferir na” e o “contemplar a” natureza a sua volta, como um pescador que se alterna nas funções de “desenvolvedor de técnicas de pesca” a observador paciencioso diante das águas que muitas vezes insistem em lhe dizer um “hoje não”.

Diante disso, é preciso reinventar nossa capacidade de convívio social para além dos embates em busca de um sucesso imediato. Devemos compreender que a tranquilidade nunca esteve em vitórias a todo custo e sim na aquisição de conhecimentos que paulatinamente fortalecem o homem diante das dificuldades – seja quando o coloca em condição de vencê-las, seja quando lhe possibilita aceitar as razões do insucesso, viabilizando assim novos aprendizados.

É baseado nessa premissa que o professor Cipriano Luckesi, ao se referir à importância do processo de avaliação educacional, diz que “devemos investir no aluno (pessoa), dialogar com ele (a), pois a avaliação busca a solução dos problemas, é dinâmica, é um processo de constante construção”, e não uma forma de se descobrir quem é melhor que quem.

Aliás, expressões como “hoje não”, “desta vez não é possível” ou “infelizmente a vaga já foi preenchida”, na maioria das vezes, são ouvidas como fracassos insuportáveis que precisam ser superados a qualquer preço, mesmo que para isso haja perda da própria saúde, quer física ou mental, bem como das relações sociais.

Necessário e precioso mesmo é, e sempre foi, viver a vida como ela é. Mesmo que persistamos em buscar melhorá-la de acordo com nossos interesses, nunca nos esqueçamos de que “ter interesse não nos dá garantia de qualquer controle”, já que esse nunca nos pertenceu ou pertencerá.

Assim sendo, utilizemos todos os nossos sentidos na busca do desfrute intenso do mundo que nos é concedido.

Assim sendo, quando nada houver a fazer, faça nada.

Crédito de imagem de abertura: AnnaTamila/shutterstock

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